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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Nas Sombras do Amor - capítulo 3

- Levante, preguiçoso! - reclamou Lynn, levantando-se rapidamente e me convencendo a continuar. - Você quer chegar em casa ainda hoje ou não? - questionou, ativando meu cérebro.

Minha mãe teria um ataque cardíaco se eu demorasse demais. Eu sei que ela confia em mim, mas é daquele tipo de mãe super protetora.

- Quanto tempo mais precisamos caminhar?

- Cansando, bebê mimado?

Revirei os olhos.

- Não - respondi friamente e era verdade. - Mas eu não gosto de andar aqui.

Ela não respondeu, apenas continuou andando. Eu observava que ela virava às vezes a cabeça de um lado para o outro, como se quisesse ter certeza de que ninguém estivesse nos observando. De certa forma, eu me sentia seguro com aquela completa estranha.

Caminhamos por mais longos minutos - ou talvez uma hora - e então começamos a nos aproximar de um "amontoado" de luzes, prédios e movimento de automóveis nas ruas asfaltadas da grande cidade.

- Bebê entregue - falou ela com ironia, quando parou de caminhar e se virou para mim.

Seu rosto estava coberto pelas sombras, mas eu já me encontrava abaixo da fraca luz de um poste de concreto.

- Obrigado, garota estranha - murmurei ao passar bem do lado dela.

Eu tinha caminhado alguns passos em frente e então me virei para onde ela estava. Com dificuldade, consegui distinguir uma silhueta feminina e charmosa parada nas sombras de um grande prédio em construção.

Me senti mal por um momento. Deixá-la ali sozinha ia completamente contra os meus princípios cavalheiros, afinal sempre quando eu saía com garotas na minha cidade, acompanhava elas até em suas casas para ter certeza de que não correriam riscos. Mas logo abandonei o pensamento, Lynn não era uma das garotas com quem eu saía e tampouco se parecia frágil como elas.

Levantei minha mão e acenei. Não devia ter feito isso. A garota estranha andou uma passo para frente e se posicionou na luz fraca do poste, mostrando a língua para mim. Revirei os olhos novamente e fui embora.



Precisei caminhar mais duas quadras e consegui pegar um táxi. Com paciência, falei o endereço da casa de minha tia e dez minutos depois eu estava parado na frente da pequena casa de cor verde - embora eu não pudesse ver a cor muito bem no escuro.

Por sorte, eu tinha a chave da casa no meu bolso e abri a tranca sem fazer muito barulho. Liguei a luz do corredor de entrada e quase caí morto no chão quando vi os olhos da minha tia grudados nos meus.

- Meia-noite em ponto. O que está pensando? - trovejou ela, mas sussurrando.

- Eu me perdi, me desculpe - tentei ser educado, mas nem isso adiantou.

- Sua mãe e eu estávamos tentando ligar para o seu celular, quando percebemos que estava no seu quarto. Para onde você foi? O que foi fazer? - o tom preocupado era evidente.

- Sempre quando tenho discussões com minha mãe, gosto de sair de casa para arejar minha cabeça e ficar mais calmo. Porém, me distanciei demais e eu me perdi. Não conheço essa cidade muito bem. Por sorte encontrei uma garota que me mostrou o caminho e pude pegar um táxi.

- A-ha! - exclamou ela, vitoriosa. - Tinha uma garota no meio!

- Não é nada do que a senhora está pensando, tia. A garota é a maior pirada, nunca conheci garota tão estranha. Mas ela parece ser boa pessoa, não era um drogada nem fumante.

- Não interessa! Era uma garota, Adam! E uma garota que você nem conhece!

- O nome dela é Lynn.

- Ah, então você até sabe o nome! - trovejou ela novamente.

Nisso, minha mãe, que estivera cochilando no sofá da sala, apareceu.

- O que está acontecendo aqui? - perguntou ela, calmamente.

- Seu filho chega meia-noite em casa, depois de passear pela cidade com uma garota estranha e que ele nem conhece!

Mulheres, pensei. Tudo o que eu queria no momento era tomar um bom banho e me jogar num colchão macio, mas pelo visto, entraríamos madrugada adentro naquela discussão.

- Mãe, tia. Agradeço por ser preocuparem por mim, mas eu estou bem. E tudo que preciso no momento é tomar um banho e dormir, passei a noite toda caminhando por lugares imundos.

Minha mãe, Amelie, me encarou com olhos suaves. Eu sabia que ela não estava zangada comigo, afinal ela sabia o filho que tinha. Já minha tia, era outra história... Ela já teve três maridos - e atualmente está namorando um músico - e julga que todo mundo é "malandro" como ela.

- Claro filho, vá tomar um banho. Eu vou dormir também, mas se precisar de alguma coisa, por favor, venha me chamar - terminou ela, dando um abraço rápido em mim e se dirigindo ao quarto de casal, onde ela e minha tia dividiriam a cama de casal.

Minha tia ficou boquiaberta, mas não cabia a ela reclamar comigo se minha mãe tinha levado tudo numa boa. Ela repetiu os passos de minha mãe, me dando um abraço e em seguida entrando no quarto.

Eu tomei um banho rápido - mas bem quente - e me joguei debaixo das cobertas.



[Capítulo 1] [ Capítulo 2] B.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nas Sombras do Amor - capítulo 2

Deviam ter passado alguns minutos apenas, mas a impressão me dizia que tinham passado horas. Eu me perguntava como ela aguentava correr todos aqueles minutos sem parar. Ela me provava que mulheres podiam ser mais resistentes do que homens quando queriam, não que eu estivesse cansando, afinal durante toda minha vida fui um ótimo jogador de futebol.

- E então... Por que você resolveu ser assim?

Por mais que eu brigasse com minha curiosidade e impetuosidade, ambas juntas sempre venciam.

- Assim como? - ela rebateu. Sua voz calma, mas eu sabia que ela não queria continuar com o assunto. Era impressionante perceber que eu sabia tão bem o que ela sentia como se eu a conhecesse a anos, mas era apenas a uma hora.

- Assim... Rebelde? - arrisquei.

- Que conceito você tem por rebelde?

- Respondo quando você me responder - venci outra vez.

- Por mim mesma - respondeu ela, cortando explicações. Depois parou de correr e também de caminhar, tive que pensar rápido para não bater contra ela. A garota se virou para mim e ficou me encarando, esperando a resposta, eu imaginava.

- Uma garota que vive nas ruas, para mim é considerada rebelde.

- Não lembro de ter lhe dito que eu morava na rua - respondeu friamente, se virou e retomou a caminhada com passos rápidos e barulhentos.

- Mas eu achei que...

- Achou errado - ela me cortou novamente. Fiquei irritado.

- Posso tentar responder novamente?

- Responda.

- Bem, acho que uma garota rebelde é o tipo de garota que costuma conhecer os lados mais sombrios de uma cidade, sem ter medo de caminhar por eles.

- Você descreveu uma pessoa destemida, não rebelde.

- Você pediu o meu conceito. Este é o meu conceito. Não o seu.

Eu tinha ganhado dela, mas preferia não ter feito isso. Ela parou novamente e sentou no chão, sem nem ao menos saber sobre o que estava sentando. Ela cruzou os braços e não olhou para mim quando me sentei ao seu lado.

- Desculpe, eu não queria ter dito isso... - comecei, mas fui cortado novamente.

- Tanto faz.

Outra garota no lugar dela provavelmente estaria sensível e chorando, mas aquela garota era incrivelmente diferente das demais. Agora que eu olhava mais atentamente seu rosto, via que ela nem sequer usava um contorno preto ao redor dos olhos verdes vivos. Também não usava esmalte nas unhas bem cuidadas e limpas. E não possuía nenhum tipo de mecha no cabelo, ele era da cor natural - ou pintado, mas eu achava que era natural -, ou seja, castanho escuro.

- Você é diferente - comentei, agora que eu podia avaliá-la melhor. Não somente a parte física, como também suas características psicológicas eram diferentes.

- Você não é o primeiro que me diz isso - ela rebateu novamente, mas desta vez sua voz não estava mais nervosa e fria. Estava apenas normal.

- Mas garanto que sou o primeiro que estou pensando num diferente de lado positivo.

Os olhos verdes me encararam e avaliaram minha expressão, concluindo que eu estava falando a verdade, ela se contentou em respirar fundo e olhar para a escuridão novamente.

- Você ainda não me disse qual o seu nome.

- Você tira tantas conclusões sozinho... Não é capaz de adivinhar meu nome também?

- Se você me der uma pista, quem sabe.

- Começa com a letra "L" - revelou de má vontade.

- Vejamos... Lorraine? Larissa? Lyla? Lise?

Eu estava chutando todos os nomes que eu conhecia com "L" e ela negava em cada um deles. Devo ter ficado uns cinco minutos falando os mais diferentes nomes que eu conhecia, até concluir que ela estava me enganando. Desisti.

- Lynn - ela falou por fim, vendo que eu desistira - Agora você me diz o seu.

- Adam.

E ficamos vários minutos sentados ali no escuro. Vez ou outra trocávamos olhares e logo olhávamos para o céu novamente. A lua estava escondida atrás de um dos prédios, mas ainda assim nos banhava com sua luz prateada.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nas Sombras do Amor - capítulo 1

Depois de brigar com minha mãe, resolvi sair para caminhar e refrescar meus pensamentos. Provavelmente eu estava fora de casa a mais de quatro horas, afinal agora estava escurecendo - quando eu saí ainda havia um belo sol iluminando essa cidade desconhecida. Pensei em pegar um táxi para chegar na casa da minha tia - eu não morava ali, tinha me distanciado muito da casa e não sabia o caminho de volta para lá. Droga! pensei bufando.

Virei uma esquina e percebi que não devia ter feito isso. Mas agora eu não podia mais voltar atrás, pareceria muito estranho e eu não queria dar uma de covarde. Uma garota sinistra estava parada no final de um beco sem saída, me encarando com uma expressão de Cai fora, se gosta da sua cara!

- O que você quer? - ela perguntou, ainda me encarando, mas não moveu nenhum músculo. Sua voz não era como eu esperava, parecia bastante feminina para uma garota daquela aparência. Vestia roupas escuras e surradas, seu cabelo - castanho escuro - caía sobre sua face e ela tinha uma tatuagem no alto do braço esquerdo - uma caveira.

- Preciso de uma informação - optei pela verdade.

- Boa sorte com isso, garoto - respondeu indiferente e eu percebia que ela não iria me ajudar, apenas queria ficar aproveitando seus momentos sombrios.

Como eu não respondi - e talvez ela nem esperava resposta - se virou, caminhou alguns passos em direção ao término da rua sem saída e ficou lá, esperando que eu fosse embora.

- Droga, me ajude!

- Eu não ajudo as pessoas - ela retrucou rispidamente, sem nem ao menos olhar para mim. Aquela garota começou a me irritar naquele momento. - A menos que você me pague por isso.

A proposta pairou no ar. Aceitar ou não aceitar? Eu precisava chegar em casa.

- Quanto você quer? 5 dólares?

Ela apenas gargalhou, mas olhou para mim novamente e caminhou alguns passos na minha direção. Parou quando dois passos nos separavam, dando a impressão de que conversávamos como velhos amigos.

- Tá de brincadeira! 5 dólares você oferece para sua irmã mais nova.

- Não tenho irmã mais nova.

- Tanto faz - ela bufou.

- Que tal... 20 dólares? É praticamente tudo o que tenho.

- Como assim praticamente?

- O restante vou precisar para o táxi - respondi vitorioso.

Notei que um leve sorriso se formaria na boca dela, mas ela impediu o acontecimento. Esticou a mão e fez um gesto de Passa o dinheiro e eu passei os 20 dólares que tinha no bolso.

Ela podia ser uma garota sinistra, mas inteligência obviamente não lhe faltava. Ela entendia as coisas rapidamente e eu acreditava que ela já tinha estudado numa escola algum dia.

- Então você quer um táxi? - não foi uma pergunta, foi mais uma afirmação com um toque de dúvida. Eu apenas acenei com a cabeça de modo afirmativo. - Pois bem, não tem táxis neste bairro, mas eu posso te levar até o centro da cidade e lá você consegue um rapidinho.

- Ótimo. Demora muito para chegar no centro da cidade? - essa era uma preocupação.

- Não, mas você terá que me seguir por alguns atalhos - respondeu, pensativa.

- Que tipo de atalhos?

Em vez de me responder, ela se virou de costas e caminhou na direção da parede de tijolos no final do beco. Para minha surpresa, ela escalou uma espécie de escada que tinha ali e pulou para o outro lado do muro. Entendi imediatamente que eu enfrentaria muitos lugares estranhos.

Como não havia outra opção e eu tinha perdido parte do meu dinheiro, fui obrigado a seguí-la. Demorei um pouco mais para escalar a escada, mas ela estava me esperando do outro lado e eu pulei ao lado dela.

Caminhamos por alguns minutos em silêncio em meio a pequenas ruelas, sombras e prédios mal pintados. Apesar de ser escuro, ainda dava para ver a silhueta da garota em minha frente perfeitamente bem. Para ser uma garota "de rua", seu andar era bem delicado.

- Por que não podemos andar por lugares comuns, sem todos esses obstáculos?

Ela não parou de caminhar -tampouco olhou para mim -, mas respondeu.

- Indo pelo caminho "normal", toparíamos com a gangue do Smith.

- Quem é Smith? - perguntei atônito.

- Um cara que você jamais gostaria de conhecer - respondeu ela, com um certo tremor na voz.

- Mas não teria problema de passarmos pela gangue dele sendo que você o conhece.

- Isso não te interessa - ela colocou um ponto final na conversa - Apresse o passo ou não vai chegar antes de o sol nascer novamente - reclamou, começando a correr.

Resolvi me calar e apressar o passo, conforme ela sugeria.



[Continua] B.